segunda-feira, 13 de junho de 2011

Confissão de amor

À Raquel

Cremos no amor que lança fora todo o medo...


O amor que nos envolveu em nossas travessias
conduzindo-nos por novos passos e rumos;
O amor que nos levou à recordação, à memória,
com novos olhares sobre velhas coisas;

Cremos no amor que lança fora todo o medo...

O amor que se acampou em nossas vidas e nos fez falar,
transformando-nos em sua voz, seu som;
O amor que nos uniu em seus laços, em vínculos de afeto e
em irmandade nos sonhos de justiça e paz;

Cremos no amor que lança fora todo o medo...


O amor que nos inquieta a resistir à indiferença;
e nos compromete a caminhar com os desejos de mudança.

Cremos no amor que lança fora todo o medo...
Cremos no amor que nos coloca face-a-face...
Cremos no amor, sinal e espaço de nossa fé...
Cremos no amor, assim, amando...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Saudoso futuro


Para quem a falta sussurra aos meus ouvidos

Ontem terminei a leitura do livro Terra Sonâmbula, de Mia Couto: moçambicano escritor de sonhos. Da última parte, algo me chamou atenção: “No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia no há-de vir”. Um comentário sobre Dona Virginia, idosa contadora de estórias. A frase sobre a senhora faz da minha imaginação o seu palco. Anda a bailar por meus sonhos. Talvez seja inquietante por ser saudade, falar da ausência-presença. Esta saudade que tem rosto de memória: recordação. Está lá atrás se mostrando, mas se desfilando na casa-presente. Assim eu pensava.

Com Mia Couto – e Dona Virgínia - a saudade é vir-a-ser, tem rosto de criança. É possibilidade, esperança. Saudoso futuro. Sonho que anima, aconchega e movimenta. Saudade é a busca do horizonte, um querer-ser. É a falta que ainda aquece a lembrança. Mas não é passado engessado, fechado, uma estória enclausurada. É convite para o desejo: nos veremos, os olhos se encontrarão novamente, os corpos repousarão próximos, juntos. Carne, sangue. É vontade que acampa o cotidiano e o faz novidade, sempre.

Dona Virgínia – ao lembrar-se do esposo – dizia: “quando eu for da idade de casar este homem me vai chegar”. O amante não está na poeira, mas no novo. Ele ainda virá. A saudade reinventa outro tempo: uma experiência que movimenta a existência, a possibilidade da possibilidade, as cores do futuro iluminam e se revelam nas andanças cotidianas. É a saudade-encontro no fim que traz a paixão para a estrada. Certa estava nossa idosa, o esposo que um dia foi ainda será: há-de vir. A saudade é o sonho de um re-encontro: “faz tempo que não nos vemos...”.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Campanha Nacional Contra a Intolerância Religiosa


Lançamento


Dia 23 de Janeiro de 2011 às 11h.

Local: Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade

Endereço: Praça Olavo Bilac. Nº 63. Campos Elísios. São Paulo. Próximo a Estação Marechal Deodoro do metrô (Linha Vermelha).

Participe desta mobilização!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O arco do desejo


À Raquel, o desejo que em mim se acampou.


No princípio era o silêncio, solidão. Um vagar pelos cantos, uma busca constante. Na solidão, o corpo não tem outros ouvidos para descansar as suas palavras, não tem a outra pele em que possa tocar. Não há outro, não há nome, não há estória, nem há sorriso. Assim, esta vida única, solitária, torna-se nenhuma. Sem graça.

Mas nesta ausência: algo acontece.


O silêncio é rompido: fez-se barulho. Nasce uma voz, leve e faceira. A causa? Um tal desejo que disparou o seu arco e resolveu acampar entre nós. Arco que lançou sua flecha: rompeu vidas e histórias solitárias. Partiu ao meio. Desejo esperto, faceiro, cheio de baianidade... Não consegue se acostumar em ver que alguém viva sozinho. Logo a vida se encontra com outra vida. E o silêncio fez-se relação. O corpo tem a quem tocar, com quem falar. Nasce o sorriso, a beleza. A vida passa a ser parceria, companheirismo, folia, carnaval cotidiano com quem se ama, com quem se sonha. Novas cores, novos sabores, novas sensações, vários desejos. Tudo se faz novo. O desejo-amor está entre nós, sútil e suave, como o ar que nós respiramos, tomando conta dos nossos corpos, das nossas vidas...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Onda Conservadora

Muitas coisas estão sendo escritas e veiculadas neste processo eleitoral. Ironia: protestantes e católicos juntos. Meu Deus! E nós, ecumênicos, éramos os hereges... Vídeo aqui, vídeo ali. Manifestos e manifestos. A razão: uma tal onda, não aquelas utilizadas como metáforas pelas candidatas nesta eleição. Mas a onda conservadora que tem espaço no chão do imaginário de nosso povo. Conservadorismo religioso: Deus foi chamado para as propagandas eleitorais: “ele está no meio de nós!” para legitimar discursos. Deus falou, Deus disse. Deus preso, manipulado. Sujeito confuso, marionete. Conservadorismo hipócrita! Bem disse Jesus aos fariseus: “sepulcros caiados”.

A eleição deste ano resolveu ser mergulhada nestas águas que eu desejei que fosse uma marolinha. Os projetos e debates sobre o Brasil que tínhamos, que temos e que queremos passou a ser uma parte: a sexualidade. Para ser mais preciso, a eleição se decidirá com aquela ou aquele que escolherá sobre o domínio do corpo? Corpo domesticado. “Aborto, pode ou não pode?” “E... homem com homem, pode?” Ai! Para alguns (como eu) uma coisa seria ser ou não a favor do aborto, outra é tratá-lo como saúde pública. Um tema - no âmbito religioso – seria ser favorável à homoafetividade, outra é a luta por seus direitos civis. Mas, amiga(o) leitora(o), nestas eleições, isto se converte na mesma coisa!

Pior, para os acostumados com as análises de discurso, basta ouvir as novas vinhetas do Serra-tucano: “O Serra é do bem, o Serra é do bem”. Sei... Sua santidade. Se este é bem, a outra é má: fechará Igrejas, é ateia (Sangue de Jesus tem poder!), vai matar criancinhas, é comunista (Maria valei-me!) e vai casar homem com homem e mulher com mulher. Discursos, discursos. Lembram do Lula? Quando eu era criança ouvia pelos corredores da Igreja Batista: “O barbudo vai censurar tudo, vai fechar as Igrejas”. Nada aconteceu. Mas tudo isto volta à tona: a política do medo, agora em relação a Dilma: mulher, guerrilheira na ditadura (um elogio!) e de esquerda.

A razão desta onda conservadora não está na sua crista, mas lá atrás. É anterior. Chama-se ideologia, que faz com que a vítima seja fascinada e encoberta diante da sua realidade. Olha-se a crista: a sexualidade, o aborto e coisas assim. Mas se esquece da análise dos projetos: a quem serve esta luta contra os movimentos sociais, contra os militantes de esquerda? A quem serve, por que serve e para que serve? Enfeita-se o sepulcro, muda-se o nome. Mas o projeto continua aquele de morte, aliado às elites, às minorias da comunicação (que se acham censuradas, poupe-me!), aos Impérios econômicos e neoliberais. Só quem sente em seu corpo, em sua pele, a dor da fome, da ausência de direitos, entende o que é de fato: “defesa da vida!”. Não é este moralismo conservador que se levanta nestas eleições, mas é a vida que Jesus mesmo disse: vida abundante! Vida plena: saúde, educação, terra para todos, arte...

Os avanços do governo Lula-Dilma são sentidos de maneiras diversas, principalmente na luta por um país mais justo e igualitário, com conquistas no âmbito cultural, econômico e social, tendo uma opção em favor das pessoas empobrecidas, caluniadas e perseguidas pela luta em prol da justiça. O ganho nestes últimos oito anos é muito real. Mas sei dos limites do governo Lula-Dilma, como a Reforma Agrária e as alianças partidárias, que sem uma reforma política permanecerão sendo necessárias para a governabilidade. Porém, mesmo com estas limitações, o governo de Dilma se propõe a avançar nas conquistas de direitos, nos ganhos econômicos, sociais e ambientais. Dilma representa o projeto de defesa da vida, vida plena, especialmente para as(os) mais empobrecidas(os)! Não tenho dúvida! José Serra, que agora é Zé, tão popular e um homem do bem... como outros irmãos da fraternidade tucana, sinalizam um governo aliado em suas entranhas à subserviência aos Estados Unidos, ao sistema capitalista nas suas vertentes mais neoliberais e à criminalização dos movimentos sociais e populares, basta analisar os seus estágios em São Paulo.

Contra esta onda conservadora que se levanta neste processo eleitoral, tenho fé e esperança que a “verdade nos libertará!”. Sou da onda vermelha, sou cristão, ecumênico (não de conveniência) e declaro, apóio, confirmo: Dilma presidente 13, PT!

domingo, 29 de agosto de 2010

Plebiscito da Terra - Locais de Votação (REJU-SP)


A Rede Ecumênica da Juventude (REJU) apoia o limite à propriedade de terra no Brasil. Por isto, estamos trabalhando na organização do Plebiscito da Terra, crendo que o direito só acontece por meio da militância.

Neste sentido, a REJU-SP organizou sete locais para a votação, que estarão abertos com este intuito nos dias 1-7 de setembro de 2010. Siga conosco nesta luta, compareça a um destes locais e responda Sim ao limite de terra e à soberania alimentar:

1) Universidade Metodista de São Paulo - Faculdade de Teologia (FaTeo). Endereço: Rua do Sacramento, 230. Rudge Ramos. São Bernardo do Campo. CEP 09460-030

2) Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade. Endereço: Praça Olavo Bilac, 63. Campos Elísios. São Paulo. CEP 01201-050

3) Igreja Família de Jesus. Endereço: Rua General Humberto de Souza Mello, 303. Centre Ville. Santo André. CEP 09120-180

4) Igreja Metodista em Itaquera. Endereço: Rua Francisco Alarico Bergamo, 208. Itaquera. São Paulo. CEP 08230-010

5) Igreja Metodista em Jardim Aeroporto. Endereço: Rua Vapabaçu, 860. Jardim Aeroporto. São Paulo. CEP 04632-010

6) Igreja Metodista no Jardim Pacaembu. Endereço: Rua Antonio N. dos Santos, 466. Jardim Pacaembu. Campinas. CEP 13033-210

7) Igreja Presbiteriana Independente de Vila Terezinha. Endereço: Rua Rodolfo Pereira Lima, 345 - Vila Terezinha. São Paulo.
Rede Ecumênica da Juventude (REJU-SP)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ferida aberta...



Ao Luis: pelas lutas, pelas utopias...


O sangue aparece, escorre. A carne está viva, a mostra. Os mais espertos notam que algo não está tão belo e perfeito. Há um problema. Mas o corpo poderoso continua a andar, desfila poder e ostentação. Fala com legitimidade, diz o que deve ser feito: como pensar e falar. À frente: todos se encantam, ele parece ter autoridade. Grande sujeito que sai para vencer. Cada passo, um sinal de força. Mas não há como esconder: “olha a ferida”, grita a criança! O corpo, cheio de poder, desconversa: “Ela está fechada! Cala a boca, menina! Ela morreu, é esquecimento. Está superada!”. Mas não adianta, ela não está morta. Ao olhar direito, nem tudo é tão saudável. Nem tudo é saúde. O sangue aparece, escorre. A carne está viva, a mostra...

Desde os meus primeiros anos nos estudos teológicos, conheci um jeito de fazer-teologia que buscou a oportunidade e o direito de pensar e refletir sobre a nossa gente, as nossas marcas, a partir do nosso mundo e do nosso povo. Teologia construída a partir do mundo dos que sofrem, das vítimas. Teologia latino-americana da Libertação. Um movimento teológico originário nas décadas de 1970 e 1980 que em sua reflexão “privilegia a situação de dominação, o avanço do capitalismo selvagem e seus efeitos, os movimentos sociais e populares de libertação, a presença da Igreja no coração do grito dos pobres” (João Batista Libânio).

Para isso, confessa desde o seu início a opção preferencial pelos pobres como núcleo da experiência teologal, e a teologia como ato segundo, nascendo da vida. Não dos dogmas (segure o coração fundamentalista!). Ela é construída em mutirão, a partir de baixo. Das experiências do povo de Deus, não dos conceitos. As estórias da Bíblia são como espelhos da nossa vida, como paradoxo das experiências de muitas gentes com o seu Deus, libertador. Espelho e convite para caminhar com o Abba na história. Junto a este projeto, busca-se a “libertação da teologia” dos dogmas ligados às classes e os processos dominantes, sem as teologias importadas (mesmo que dialogue com elas) e jeitos de ser do outro, do centro: eu-ropeu, estado-unidense. Somos latino-americanos, precisamos nos pensar.

Muitos já declararam a sua morte. O fim da teologia que toma a história como história dos oprimidos, como história daqueles que não tem palavra; que luta por justiça e pelo pão nosso de cada dia; que tem como centro a busca por sinalizar o reino de Deus em nosso mundo, pois “cremos na vida antes da morte”; que nasce do contexto daquela/e que sente dor, que sofre, criticando e buscando a transformação desta realidade. É a morte, com certidão de óbito (por volta de 1989), de um novo jeito de fazer teologia que está a serviço da transformação social, com caminhos de libertação sociopolítica. Com a busca profética da transformação das estruturas que geram morte e servem às lógicas do Império e da idolatria (Santo capital-mercado: orai por nós). É o enterro de uma teologia que – mesmo utilizando-se de instrumentais marxistas – tem como motor, não as bases econômicas, mas a espiritualidade: o Espírito que é “a ‘Fonte de vida’, trazendo vida para dentro do mundo: vida total, vida plena, irrestrita, indestrutível, vida eterna” (Jürgen Moltmann). Espírito que leva à luta e à festa, ao confronto contra a opressão e à folia do reino. Teologia que fala do seguimento de Jesus, com as suas escolhas: “honradez para com a realidade, parcialidade para com o pequeno, misericórdia fundante, fidelidade ao mistério de Deus...” (Jon Sobrino).

Mas algo está estranho. Mesmo que a neguem, a Teologia da Libertação aparece aberta, renovada, com olhares ampliados a partir de novos problemas ligados a etnia, gênero, criação, pluralismo religioso. A instituição deseja a sua morte, mas ela ainda permanece viva dentro dos movimentos populares, de movimentos nas Igrejas, nas Faculdades de Teologia (mesmo que os do poder queiram matá-la, ameaçá-la!) e nas mãos, na mente, nos olhos e nos pés de jovens teólogos – como eu – que a assumem como lugar e espaço para fazer teologia, não como prisão: mas como liberdade, libertação. A ferida está aberta no corpo das instituições (Paulo Suess). O sangue aparece, escorre. A carne está viva, a mostra. Mesmo que coloquem panos, adesivos. Mesmo que tentem silenciar a voz de quem não segue os modelos das alianças com as teologias neoliberais – a voz continua a bradar. Mesmo que seja apenas uma voz que brote do sangue, como Abel. “Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde seja” (Eduardo Galeano).
Não há como esconder: “olha a ferida”, grita a criança! Ela sangra, está aberta